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domingo, 1 de março de 2020

Tese e Desafios

Eu acho que me tinha esquecido como é começar algo. 

Tive o mesmo trabalho por 10 anos, aprendi imensas coisas lá, mas com o tempo habituei-me às minhas tarefas e tinham-se tornado coisas que eu sabia fazer e se não soubesse fazer pelo menos sabia como aprender a...

Lembro-me duma amiga minha dizer dizer muita vez que a vida é como um jogo de vídeo, que temos patamares e que o que nos diferencia é a capacidade de passar ao seguinte.

Eu estou nessa fase. Neste momento dei um salto e em vez de passar ao patamar seguinte sinto-me agarrada à beira do precipício a tentar subir.

Desde que vim para Hull tive problemas e situações sobre as quais não tenho qualquer controlo, neste momento um mês depois de finalmente ter autorização para aceder aos dados e começar a minha tese estou na fase em que as coisas começam a depender de mim. Se por um lado isso é bom porque quer dizer que finalmente iniciei a minha jornada por outro lado faz-me sentir pequenina. 

Desde que comecei a trabalhar no meu projecto aprendi imensas coisas, mas aprendi sobretudo a grande extensão da minha ignorância no campo que escolhi. Eu sou uma optimista e isso às vezes põem-me em situações difíceis, situações das quais não sei como vou sair, esta é uma delas. 

A minha tese tem o objectivo de classificação de imagem com uso de técnicas de Deep Learning. Trocado por miúdos e por termos que talvez sejam mais correntes, estou a aplicar inteligência artificial para que um programa classifique "Diagnostique" imagens como doentes ou saudáveis. 
Na teoria parece simples.
comecei por fazer cursos online,  fiz uma disciplina de programação (afinal passei! :D),  criei e organizei as bases de dados, li sobre estes conceitos e técnicas. E senti-me super preparada para avançar confiantemente, só que não! 

Na realidade assim que comecei a tentar aplicar tudo o que já sabia, começou tudo a correr mal. Na realidade ade é um pesadelo! Eu não percebo nada de programação, as imagens que uso são em formatos diferentes das geralmente usadas, a linguagem de programação diferente da mais commumente usada, por usar dados muito sensíveis não é possível ter ligação à internet no meu computador e não tenho algumas das toolbox que deveria instaladas de modo que tenho de adaptar o que os exemplos sugerem, o meu orientador mudou de universidade... Sinto-me no meio das areias movediças da investigação

Já não me lembrava do que era sentir-me assim. Vi muitos dos meus estudantes passarem por isso, achei que conseguia perceber o que sentiam mas não! Esquecemo-nos o que é estar do outro lado e começar algo mesmo difícil. Ser um novato.


Neste momento sinto-me uma criança a aprender a ler.


Como tentei sempre  sempre participar em coisas diferentes,tinha chegado  a um ponto em que sabia mais ou menos com o que contar, resolver os problemas que apareciam não era um desafio tão grande, mas aqui voltou a ser.

Já há algum tempo que não tinha dúvidas sobre ser capaz de concluir aquilo a que me propus quando as coisas estão nas minhas mãos e esta semana tive este sentimento. Estou neste momento a tentar lembrar-me das vezes em que tive esta dúvida e espero ir encontrando o meu caminho brevemente, ir ganhando forças para passar ao patamar seguinte, as probabilidades não parecem famosas. Vamos ver...




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Mudanças...

Esta semana tive a minha última consulta com o psicólogo.

 Segundo parece depois daquela fase mesmo negra que passei desde o verão até Outubro mais ou menos estou a conseguir reequilibrar-me.

Digo a conseguir pois embora o psicólogo me tenha dito que estou bem, e que ache que o meu mau estar tenha sido uma resposta natural às mudanças, e problemas com que tive de lidar no ano passado, há dias em que ainda não me sinto eu.

Falar, escrever, ir ao psicólogo, encerrar o capítulo do casamento, mudar de casa e finalmente começar a tese... tudo isto ajudou a que a pouco e pouco eu me sinta de novo mais forte, durma melhor, esteja mais capaz de ultrapassar as dificuldades que aparecem num doutoramento.

Disto tudo trago comigo algumas coisas que me mudaram para a vida, uma é que tenho de ser mais assertiva, dizer o que me magoa quando me magoa, pois ainda que não vejamos as coisas acumulam-se e no longo prazo afectam-nos de uma maneira que não antecipamos. Outra das coisas que é essencial ser disciplinado, sobretudo com o sono, eu sempre tive dificuldade em ter horários de dormir muito regulados e sofro de insónia desde criança, mas alguns dos meus comportamentos também influenciam este padrão de sono. A outra é que tenho de ser menos independente, contar com as pessoas que gostam de mim, porque não estou sozinha no mundo, de modo que não devo agir como se estivesse.

Ainda assim estou grata por me sentir já um pouco mais capaz de ter uma vida normal, de voltar a ter força para estabelecer objectivos outros que apenas sobreviver, e de voltar a ter gosto pela vida, de voltar a ter um pouco mais de bom humor, de deixar um pouco de amargura que se tinha colado a mim para voltar a ser a pessoa mais empática e optimista que sempre fui.

Agora é agarrar-me ao trabalho de doutoramento com unhas e dentes... Até porque não percebo nada do que estou a fazer.. Mas isso é assunto para outro post.




domingo, 3 de novembro de 2019

Conversas com o loiro: "Cold feet"

Um dos preconceitos que geralmente se tem em relação aos alemães é que eles são frios, sérios e não têm sentido de humor. Eu devo dizer que é verdade do que tenho conhecido são super sérios em assuntos sérios e odeia risos e brincadeira neste contexto, mas fora disso são divertidos. O loiro é uma das pessoas mais engraçadas que conheço, e mesmo quando estamos como agora cheios de problemas e a afogar-nos em burocracia acaba por encontrar coisas para gozar com tudo e me fazer rir.

Eu o Loiro  temos circunstâncias um pouco diferentes do normal na preparação do nosso casamento e por isso tem sido feito tudo mais em conjunto do que é habitual em Portugal. Uma das coisas que escolhemos em conjunto e que tradicionalmente não costuma acontecer foi o fato do noivo.

Já há algum tempo fomos os dois comprar o fato de noivo dele, mas, não comprámos os sapatos.
Nos últimos meses sempre que falamos do que falta preparar eu pergunto-lhe se já comprou os sapatos, e ele por brincadeira para eu não ser tão chata começou a responder-me que decidiu ir antes de sandálias.

Um destes dias fartei-me de rir com esta conversa, vou colocar aqui o diálogo para que vejam:
 (está em português mas na realidade foi falado em inglês e é em inglês que os trocadilhos fazem sentido):

Eu: Então, e já compraste os sapatos?
Loiro: Já te disse, vou de sandálias.
Eu: Mas assim vais ter os pés frios!
Loiro: Não, vou usar as sandálias com meias...

Do original pés frios ="cold feet"  é uma expressão que em inglês é usada para quem tem medo de se casar e pensa em fugir antes disso...
E as meias com sandálias é uma piada, porque os alemães em geral usam meias com sandálias e é uma coisa que nós portugueses achamos super estranho.

Nunca vi o loiro de sandálias com meias, vamos ver como ele aparece no dia. :D





sábado, 2 de novembro de 2019

Amor é: na saúde e na doença...

Nas últimas semanas tenho andado adoentada. Uma das minhas mamas começou a ficar dolorosa, com pequenos derrames, quente, um pouco aumentada, com alteração de cor numa das regiões do mamilo.. A um mês do casamento, em Inglaterra sozinha, e sendo uma mulher em geral fiquei em pânico!

Eu tenho muito medo de vir a sofrer cancro e mais especificamente cancro da mama, não é de agora, mas de quando estagiei no IPO.  Desta vez não foi um medo totalmente infundado pelos sintomas que tenho tido. Entretanto fui ao médico, ainda sem certeza de nada mas  ontem deram-me antibiótico e em princípio é uma mastite (infecção da mama) tenho de fazer mais alguns exames só para ter a certeza, mas fiquei um pouco mais relaxada.

No meio disto tudo na quinta-feira a conversar com o loiro perguntei-lhe:

Eu- E se eu tiver cancro, tu queres manter o casamento?

 (70% das mulheres com cancro da mama deixam de ter vida sexual por rejeição dos parceiros após, muitas divorciam-se nestas circunstâncias)

Loiro- Não quero fazer discurso nenhum de casamento, não quero nada complicado, quero quanto mais simples melhor.

Eu- Mas não me respondeste!!

Loiro - Porque não são coisas relacionadas. Se tiveres cancro não tem nada a ver com o nosso casamento. Se estiveres doente não é culpa tua nunca te deixaria por isso. Agora nada de pânico, vais à consulta e depois sabemos.

Ontem depois da consulta tinha aqui um jantar com amigas preparado por mim, cheguei a casa e comecei a organizar as coisas, como tínhamos combinado no skype às 20 e já tinha algumas mensagens da manhã no whatsapp que ele não tinha respondido doutras coisas não enviei mensagem a dizer nada...

Quando me dei conta tinha imensas chamadas não atendidas e estava a tentar ligar me de novo...

Eu- Aconteceu alguma coisa?

Loiro- Aconteceu a tua consulta, não enviaste mais nada eu já estava super preocupado a pensar que tinhas de ficar no hospital, our que te estavam a operar e ninguém me dizia nada,ou assim...

Derreteu-me o coração...

Ainda sem sintomas mas há alguns anos tinha feito a mesma pergunta: - Se eu tiver cancro ficas comigo? E a resposta tinha sido - Não sei!.

Agora com sintomas que podiam ser foi o oporto. Foi uma resposta de constância, de aceitação em circunstâncias menos boas, de amor incondicional.

É assim que vemos se somos amados,, quando não depende da nossa beleza, da nossa idade, do sermos saudáveis ou não. É claro que à primeira vista tudo isto interessa, somos biologicamente condicionados para ver beleza em seres saudáveis. Mas a convivência e o elo que formamos deve sobrepor-se a isto. 

O Loiro não fala muito, mas quando fala tem o poder de me deixar a mim- falabarato- ficar muda!





segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Odiozinhos de estimação: grupos de noivas

Eu não sou uma pessoa de odiar a sério.
Se pensar bem não guardo rancores, acabo por esquecer e com o tempo até querer bem a pessoas que de algum forma me prejudicaram.

Ainda assim tenho uma tendência para odiozinhos de estimação. O meu último odiozinho de estimação são as publicações dos grupos de noivas do facebook e esta febre dos casamentos.

Eu sempre tive intenção de me casar,  sou totalmente pró-casamento, respeito os casais que não o fazem mas para mim é algo que sempre fez sentido. Adoro casamentos, o ambiente de felicidade, de esperança, de Bem querer, é algo que me derrete.

Ainda assim, e mesmo com este grande amor por casamentos, detesto esta febre de que as noivas parecem agora tomadas. É exagero! É exagero que tudo tenha de combinar com tudo! É exagero que se peçam opiniões no grupo da vida privada do casal! É exagero que se queixe da sogra publicamente! É exagero as encenações de pedidos só para show off! É exagero obrigar o noivo a vestir com as exactas cores do casamento e decidir tudo sem ele! E tantas outras coisas que acabam por ser muito de casamento mas muito pouco de casal.

Eu vejo estas coisas e dou comigo a achar que pelo caminho de nos preocuparmos com o exterior perdemo-nos a nós como indivíduos e como casais.

No lado oposto conto-vos a experiência do meu casamento preferido dos últimos tempos foi o casamento de uma amiga minha cá em Hull. Depois da missa foi feito um barbecue, no quintal deles. Estava tudo enfeitado e lindo, a família ajudou a preparar coisas e havia um ambiente de descontração e felicidade total que adorei.

O meu casamento vai ser um dia particularmente infeliz, fazem lá falta pessoas que apesar de já não estarem entre nós amo muito e que sei que queriam viver este momento. Mas ainda assim se puder ter um desejo é o de que se aproxime deste de que vos falei. Que o sentimento de amor, família e amizade seja muito superior ao sentimento de perfeição que abomino cada vez mais.

Termino isto a aconselhar-vos a juntarem-se aos grupos das noivas do facebook. Se já se tiverem casado ou não pretenderem fazê-lo podem na mesma, têm sido uma das razões de riso dos últimos tempos. Acabo a divertir-me com aquelas coisas. Até ter entrado nunca me tinha dado conta que ainda vivemos numa qualquer realidade alternativa dos anos 50, em que as mulheres se querem sem maior ambição que casar e ter uma festa bonita para fazer inveja às "amigas".








segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Ensinamentos

Há dias na vida de adulto em que nos sentimos como crianças abandonadas. É como se nos tivéssemos perdido da mão da mãe ou do pai num mar de gente e não soubéssemos bem o que fazer para os encontrar. 

Hoje sinto-me assim, com falta de uma direcção, de um guia que me ajude a tomar as decisões certas.

Há mais ou menos 12 anos tive uma altura semelhante na vida, estava  a meio do segundo ano de mestrado e por atrasos diversos da universidade só a começar a  tese de mestrado, habituada a ter sucesso, sentia-me a falhar na vida e que todas as minhas escolhas até aí tinham sido erradas. Estava presa no mestrado errado, na relação errada, no amor errado, presa numa vida em que sentia não ser a que queria viver. 
Comecei a ter algumas fobias, passava os dias a comer, chorar, dormitar durante o dia, acordada à noite. Vestia-me para sair de casa e chegada à rua não conseguia sair da porta do prédio. Completamente bem vestida e maquilhada voltava para cima retirava tudo e continuava fechada. Isto durou mais ou menos dois meses. 

Um dia, no final destes dois meses, o meu pai foi-me buscar e levar-me de Lisboa para a terra para eu recuperar. Eu e o meu pai não éramos pessoas de conversas muito profundas. Tínhamos uma relação mais de cão gato, e em geral ele em casa era mais o género de pessoa de  ouvir as conversas entre nós as mulheres sorrindo sem participar muito. Ainda assim nesse dia, só nós a caminho da terra, eu a sentir-me na vida como se me afundasse em areias movediças, ele disse-me:

Pai- Sabes não há mal nenhum em desistir, em falhar, em mudar de direcção. Eu tinha tudo planeado, ir estudar desporto depois tive o acidente e acabei por ir estudar outra coisa e sou feliz. Gosto mesmo muito Se não te sentes bem onde estás muda. Começa outra coisa.

Não me lembro do que respondi, mas este saber que podia falhar foi a coisa mais libertadora da minha vida. Na altura decidi desistir do mestrado e ir começar a licenciatura de Engenharia física em Coimbra. Continuei a tese mais por hobbie, mas a achar que quando começasse o ano a ia abandonar. A minha Mãe levou-me ao médico de família, ele receitou-me medicação para dormir, que nunca cheguei a tomar. Comecei a dizer às pessoas que ia abandonar o mestrado, porque assim pensava. Fui aceite em Engenharia física, onde por equivalências tinha um ano feito e passados uns meses fui chamada para a escola e acabei por me voltar a focar no mestrado e a acabá-lo já a trabalhar.  

Mas acho que tudo se curou em mim com esta conversa, com o tempo que tive a seguir em família com os novos planos que fiz na minha cabeça e nunca cheguei mesmo a viver. Acho que foi a segunda vez que o meu Pai me salvou a vida.

Neste momento não o tenho para me vir buscar e resolver tudo.  Acho que é isto que perdemos com a perda dos Pais, uma parte do nosso mundo morre com eles a parte que nos suporta. É este sentimento de desamparo que estou a ter muita dificuldade em superar.

Sinto que outra pessoa raivosa ocupou o meu corpo, sinto-me profundamente irritada com os mais próximos sem razão, grito com a minha mãe sem querer. Algo muito negro está a ocupar a pessoa relaxada, feliz e amorosa que costumo ser.

Não esperava que tanta pessoa lê-se e comentasse o meu post anterior, nem procuro piedade. Escrevo porque escrever me ajuda. Para mim é natural. É como se tivesse conversas comigo e com os ensinamentos das pessoas que fazem e fizeram parte da minha vida e ficaram. Escrevo um diário mais privado, mas escrever de forma pública ajuda-me a esforçar-me mais por ser consistente, é mais fácil mantermo-nos no trilho quando dizemos a toda a gente do que quando só nos prometemos a nós. Por isso escrevo para o público.

Eu não quero desistir do que estou a fazer, mas preciso duma mudança. De subir do fundo do poço a pouco e pouco. E talvez chorar ajude de facto, como se com o caudal das lágrimas o poço fosse enchendo e nos ajudasse a subir. Há sofrimentos que temos de viver bem vividos para ultrapassar. Estou nessa fase, mas ainda acredito num amanhã melhor..



P.s. A foto é do primeiro dia em que conduzi a autocaravana, o meu Pai ensinou-me. Foi nas férias de verão de 2017, conduzi um pouco por toda a Europa. Este ano fui eu que a levei quando fui uns dias de férias com a minha Mãe. Talvez como no resto na vida, seja aplicar as ferramentas que me deixou.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Como a dor nos muda

Há a ideia geral de que as pessoas não mudam.

 Eu discordo inteiramente, acho é que há dois tipos de mudança que se operam em nós. 

O primeiro tipo é aquele em que cabem as mudanças pequeninas que se operam cada dia e que ao fim de algum tempo acabam por se tornar numa mudança maior, são as mudanças que quase não vemos. Daí a 10 ou 20 anos percebemos que tudo aquilo que eram verdades absolutas já o não são, que as coisas que eram o centro da nossa vida mudaram e que a pouco e pouco outras que não tinham essa importância, agora têm.

O segundo tipo de mudança que se opera em nós é o das grandes mudanças, e estas por norma ocorrem com um acontecimento importante. Acontecem em consequência de grandes eventos, grandes mudanças, rupturas, perdas, ganhos importantes. Acontecem quando nos apaixonamos, quando mudamos de cidade, quando fazemos um curso, quando mudamos de grupo, quando terminamos com alguém, quando alguém querido nos morre...

Nos últimos tempos devido à morte tão inesperada do meu Pai, tenho pensado muito nisto, tenho visto as mudanças nas pessoas que me rodeiam e são mais queridas. Tenho visto as lutas que temos para nos reajustarmos a esta transformação e a forma como nos mudou como pessoas.

Eu sempre fui muito religiosa mas isto afastou-me um pouco de Deus, se por um lado ainda acredito por outro sinto-me frustrada. Tornei-me mais medrosa e ansiosa. Acho sempre que algum momento pode ser o último, mas ao contrário do conhecido Carpe Diem e o #YOLO, é um fardo não uma sorte ver o mundo assim.
 Culpo-me ainda pelo facto de o meu Pai ter morrido na vinda de me ter ajudado. Eu não podia adivinhar e embora saiba isto racionalmente emocionalmente é algo que tem sido muito difícil de gerir. 

Tudo isto me mudou, transformou-me em alguém mais pessimista, mais triste, mais revoltada. Transformou-me também em alguém mais forte e resiliente. Só através do sofrimento mais profundo encontramos a nossa verdadeira força e sabemos os nossos limites.

Isto é muito verdade para mim particularmente este  último ano, em que além desta grande perda sofri  outras mudanças e perdas... 
Saí do sitio onde trabalhei por 10 anos (e adorava apesar das queixas continuas de excesso de trabalho), mudei de país, afastei-me da família, do loiro, da minha casa, tenho enfrentado dificuldades com a tese em processos de autorizações, burocracias, mudanças de orientadores, a orientação dum casamento à distância com toneladas de documentos, lutas de família neste processo de reajuste, problemas com o loiro por estarmos nós os dois desequilibrados internamente... porcarias atrás de porcarias.

No meio disto tudo o facto de saber que o meu Pai queria que eu prosseguisse com os meus objectivos é o que me tem dado força de prosseguir sem ter ainda desistido de nada. Acho que ele sempre acreditou em mim mais do que eu mesma. Eu sempre me senti fraca, frágil. E só agora com estas perdas todas me dei conta que o não sou.

O Loiro tinha me dito que depois de perder o Pai se sentia mais desamparado no mundo. Eu não o entendi, achei que tinha entendido mas na realidade não!
 Mas agora sinto-o também. A tragédia traz-nos esta força que nos ensina capazes de ultrapassar grandes dificuldades, mas a tragédia da perda de alguém tão crucial na nossa estrutura traz-nos a certeza de que nada é eterno, de que nada é certo e uma insegurança no mundo e no futuro que nos acompanha para sempre. Um sentimento de desamparo que se entranha em nós, nos ocupa e se faz eu.

A dor transforma-nos.




domingo, 4 de agosto de 2019

Conversas com o loiro: Surpresa

Ainda não estou de férias. E parece que quando menos falta mais o tempo custa a passar.
Ando desmotivada e com um humor de cão, especialmente nos fins de semana quando estou mais sozinha e tenho mais tempo para pensar na vida.
Mas hoje acabei por ficar feliz com uma coisa pequenina...

Eu e o loiro conversamos imenso sobre livros. Lemos muito, trocamos e partilhamos.  Isto começou porque eu sempre adorei ler. E uma das coisas que ele fez no início do namoro  que realmente me apaixonou foi ler o "Orgulho e Preconceito", é um dos meus livros preferidos. Algum tempo depois confessou que o fez mais para me impressionar que por interesse e que não gostou muito do livro, mas a verdade é que funcionou! Eu fiquei realmente impressionada e começámos a ter esta tradição literária de casal de ler em conjunto e trocar opiniões. Hoje neste contexto aconteceu uma coisa engraçada...

Loiro - Olha já acabei o livro que estava a ler.
Eu - A sério? Só eu é que este ano não leio nada, ando mesmo sem paciência.
Loiro- Vou começar outro que quero ler há algum tempo mas ainda não tinha conseguido.
Eu- Qual? 
(usualmente trocamos livros tipo romances, mas ele lê mais livros sobre desporto e eu sobre catástrofes e personalidade)
Loiro- Este! (e mostrou-me o meu livro!)

É engraçado mas nem me tinha passado pela cabeça. Como o livro é escrito em português e é poesia ele acabou por nunca o ler porque na altura do lançamento não sabia o suficiente  para o entender. E agora que sabe decidiu começar. <3

Como ele é um crítico honesto e exigente (Quem é que encontra algo contra a Jane Austen? Quem??!!!), sou capaz de ter um problema (ou talvez não, escrevo muito pior que ela!)!!! :D lolol
Em todo o caso é algo que me faz muito feliz partilhar com ele. Acredito que na poesia e no sofrimento despimos verdadeiramente a alma e nada me agrada mais que o facto de ele me querer ver assim.






sexta-feira, 2 de agosto de 2019

"Tiny Houses" e vida frugal

Qualquer pessoa que me conheça mais ou menos sabe que eu tenho uma tendência grande para acumular coisas. Tenho roupas que practicamente não uso, livros que provavelmente nunca lerei e apesar de no último ano ter feito um grande esforço para reduzir as minhas coisas não sinto que tenha ainda chegado lá.
Não me considero materialista no sentido de valorizar muito o que cada coisa custa, mas sou materialista no sentido de sentir conforto nas coisas que tenho. Sou muito ligada emocionalmente a todos os objectos, lembro-me quando comprei, porquê e tenho uma grande dificuldade de me ver livre de coisas.

O Loiro é o oposto total, todos os objectos que possui cabem em duas malas de viagem. É um adepto do minimalismo, chega mesmo a ter vários polos todos da mesma cor para não ter de escolher e andar sempre igual. A jornada da vida dele é de simplificação. Uma das coisas que ele adora em Portugal é o clima porque lhe permite ter uma vida quase inteiramente ao ar livre. Pratica imenso desporto, lê ao ar livre, dá caminhadas diárias, acampa imensas vezes durante o ano, no tempo livro apanha lixo de parques por razões ambientais. E tudo isto são coisas que eu admiro nele, apesar de ser diferente.

Por isto e pelas minhas experiências passadas de férias de autocaravana com os meus pais a viajar ganhei um gosto por casas mini. As chamadas Tiny Houses. 

Quando pensámos em comprar casa andámos a ver mas percebemos claramente que as casas mini ainda disponíveis no nosso país e com o facto de termos de comprar o terreno e de querermos ficar em Lisboa ou muito perto não era uma opção. Ainda assim e apesar de termos optado por outra solução fiquei com este "bichinho" e estas casas fascinam-me.

Não está nos meus planos mas era algo que certamente gostaria que estivesse.

Fui educada a aprender que maior é melhor, até me aperceber que não. 

E hoje no youtube encontrei uma família inteira a viver este estilo de vida mais simples, menos complicado numa destas casas e devo dizer que me parece um sonho. Nada é tão importante como proximidade e foco nos que amamos e a maioria das vezes as coisas servem apenas para nos distrair do que realmente importa. 

Deixo aqui o link tiny house


E uma foto duma destas casas. Só para verem como são giras. :D


quarta-feira, 31 de julho de 2019

Conversas com o loiro

Eu sou firmemente decidida quanto às grandes coisas que quero na vida e completamente indecisa em relação às pequenas.

Na preparação do meu  casamento com o loiro descobri muito rápido o que para mim era necessário e o que era acessório. 
Claro que sofri um grande golpe com a perda do meu Pai e só consigo pensar no dia como uma ocasião agridoce em que ele não estará. Logo ele que andava tão entusiasmado com os planos! Ainda assim, viver este tipo de ligação com o loiro e com Deus é algo que quero muito.

Uma das coisas em relação à qual eu não estou ainda decidida é a questão de ter despedida de solteira, se uma em Portugal e outra cá, se só uma lá, se nenhuma. 
Há coisas que sei que não gosto. Para ser honesta acho as despedidas de solteira uma foleirice. Mas a ideia de ir sair com os meus amigos é sempre agradável e uma coisa mais simples não está totalmente fora do plano.
Já o Loiro decidiu que não quer festa de despedida de solteiro. Eu tentei convencê-lo a ter pelo menos uma mini despedida de solteiro com os irmãos ou assim:

...
Eu- Mas tens a certeza que não queres mesmo?
Loiro- Tenho!
Eu- Mas porquê?!! Tens a certeza que não te vais arrepender?
Loiro- Tenho. Casar não é uma coisa má, por isso não faz sentido que a pessoa se tenha de despedir de ser solteiro.

Nesta última frase ele relembrou-me duas das coisas que realmente me apaixonam nele. O facto de ele pensar sempre pela cabeça dele até ao mais ínfimo detalhe e a segurança com que abarca cada uma das suas decisões depois de tomada. 

Não acredito que só o amor seja suficiente para manter uma relação, tem de haver mais. Tem de haver comprometimento, compatibilidade, tolerância, admiração, atracção, objectivos partilhados, responsabilidade...

Mas no amor tudo deve ser mais fácil, se exige muito esforço para resultar não é a sério.
 E sinto isso em relação ao loiro. Sinto que torna a vida fácil.
 Ao lado dele mesmo os momentos mais amargos perdem um bocadinho da amargura porque me sinto entendida e acompanhada. 

Amor é isto! 
É sentir mais saudade dos momentos rotineiros que dos fantásticos. 
É saber que no fundo mais importante do que a viagem ou o que se faz é a pessoa que nos acompanha. 

O loiro ensina-me todos os dias que os amores espectaculares não pertencem só nas páginas dum livro, mas podem ser criados por pessoas de carne e osso, com falhas e qualidades, por pessoas reais como eu e Ele.




sábado, 13 de julho de 2019

Dizem que o amor nos muda

Dizem que o amor nos muda, que é inevitável que em qualquer relação de amor nos comecemos a parecer mais e de certa forma nos aproximemos através da transformação. Eu acredito nisto e tem sido engraçado ver a transformação que a relação com o loiro tem operado em mim.

Apesar de tentar ser consciente em relação ambiente e pessoas, sempre o fui de forma muito incompleta.

Levo os meus sacos para o supermercado desde antes de ser moda, tento comprar em lojas locais de frutas e legumes, sou paranóica com  reciclagem, opto sempre por transportes públicos... e tudo isto são hábitos que considero bons!
 Por outro lado sou um bocado viciada em compras (a segunda indústria mais poluente), uso imenso plástico e sou um pouco uma acumuladora.

O loiro é minimalista já há muito tempo, vive aquele tipo de vida simples, desapegado de objectos, pouquíssimas roupas compradas em sítios com produção europeia....Eu o total oposto!

Desde que vim para Hull, trouxe apenas o essencial e deixei o Blondy viver no nosso apartamento com as minhas roupas.  Com esta mudança dei comigo a pensar seriamente se faz sentido ter tanta coisa.
Mudei muito neste último ano. Aprendi a ver o essencial e a cortar o supérfluo para que não me distraia do que realmente interessa. As pessoas que amo, os meus objectivos, o meu papel no mundo...

O exemplo é sempre mais educativo que a pressão e realmente nisto o loiro tem razão. Simplificar a vida e viver em harmonia com o ambiente e o mundo faz-nos mais felizes. 

Por isso, decidi finalmente adaptar-me a este estilo de vida mais simples, comprar apenas o necessário, evitar o desperdício, desapegar-me um pouco mais do material e tentar evitar tudo o que pertence a lojas de fast fashion. Vamos lá ver como me saio nisto. é uma grande mudança da pessoa que eu era há cerca de um ano, mas sinto-me finalmente pronta.


Não quero ser mais parte do problema!


P.s. Se puderem vejam o documentário da netflix true cost, choca-nos mas vale a pena ser visto.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Como um estrangeiro entende português...


Hoje tive uma conversa engraçada com o loiro que vos deixo aqui.

Para contextualizar, tenho de explicar que há três semanas o meu loiro foi operado a um pé e desde aí tem estado a recuperar. Esta semana começou a fisioterapia. Vindo da fisioterapia tivemos esta  conversa. Nós  comunicamo-nos sempre em inglês, e ainda que na vida normal com outras pessoas em Portugal ele já fale português às vezes acontecem situações cómicas. Para que entendam todas as palavras que no original nós dissemos em português vou colocar entre aspas, tudo o que estiver fora de aspas foi dito em inglês.
Escuso dizer que apesar de a linguagem ser um bocadinho ofensiva não é minha intenção ofender ninguém, estou a reproduzir a forma como o trataram na consulta...

Eu- Então como correu a fisioterapia?
Loiro- Correu bem mas o fisioterapeuta chamou-me "marisco".
Eu- "Marisco"? Porquê?
Loiro- Estava a fazer-me doer e eu estava preocupado que a dor não fosse normal e queixei-me e perguntei se era suposto doer, então ele chamou-me "marisco". Disse:"Estes homens hoje são uns mariscos!".
Eu- Não terá sido "maricas"?
Loiro- Ah, pois foi isso!


Eu lá lhe expliquei o insulto, ele ficou mais sossegado por ter sido uma piada, mas queixou-se de que a pessoa tem de saber se estas coisas são normais ou não.

 E eu fiquei a pensar que todo este processo da cirurgia me tem ensinado como a abordagem à saúde é diferente nos dois países:

-Quando o médico diz que lhe responde e demora dois dias a responder, eu acho normal, ele acha que ele não é confiável. 
-Quando as consultas estão atrasadas, eu acho que é normal, ele acha que o médico não é confiável. 
-Quando gozam com ele numa consulta, eu acho normal que é para relaxar, ele acha uma falta de respeito. 

Eu não sei bem o que está mesmo certo, sei que os nossos profissionais fazem o melhor possível com os meios à disposição. Mas talvez exista mesmo uma necessidade de reorganização dos serviços, em que as pessoas tenham um sistema mais previsível, mais respeitoso, em que os pacientes sintam que se podem queixar e perguntar à vontade. 
A nossa saúde ainda é muito centrada no Médico e menos no doente e  há um caminho a fazer. Acho que no fundo nós portugueses normalizamos um sistema que não devia ser visto como normal.
Talvez no meio esteja mesmo a virtude e uma coisa entre os dois extremos que conhecemos entre Portugal e a Alemanha pudesse ser possível, em que se brincasse com o doente de forma não ofensiva... uma realidade em que as pessoas se sentissem ouvidas e atendidas de forma competente.

Deixo uma foto do loiro quando acordou da cirurgia: 



P.s. Ele não vai gostar, mas a verdade é que mesmo pouco depois de acordar da anestesia  o acho super giro. 😻

sábado, 6 de julho de 2019

Lutas que não são só nossas

Eu tendo a viver a minha vida de forma muito transparente. 

Acho que isto vem do facto de eu perseguir a felicidade e  acreditar que um dos caminhos para a atingir é manter os nossos interior e exterior em harmonia, congruentes. Assim vivo para mim mais do que para os outros, ainda que ironicamente o escrever sobre a minha vida num blogue e tentar ser honesta sobre as minhas lutas e dificuldades o sejam na medida em que esta informação está disponível para os outros.

Nos últimos meses não escrevi pois com a morte do meu Pai fiquei um pouco apática em relação ao mundo, tenho vivido esta dor de forma pessoal e de certa forma isto fez-me fechar em mim mesma e procurar mais a companhia dos que amo. Mas voltei a sentir vontade de escrever de novo, escrever é como que uma paixão que me liberta,  parece certamente exagerado, mas é como o sinto. Uma grande amiga minha disse me uma vez que os meus blogs são um pouco como diários abertos, em que quem me conhece me revê aqui inteiramente. Os altos e baixos, as vitórias e lutas...

 Uma das lutas que travei de forma pública em conjunto com o meu loiro foi o facto de ele ter sofrido de depressão e as dificuldades que enquanto casal a dado ponto isso nos causou. Felizmente e apesar de os estados mentais terem sempre de ser vigiados e reavaliados de tempo a tempo, conseguimos encontrar um equilíbrio em que o "dragão" dele se foi tornando mais pequeno e adormecido e é agora uma espécie de estimação com a qual brincamos no nosso dia a dia, enquanto construímos sonhos e a nossa vida conjunta.

Há algum tempo num jantar em que se falou de doença mental contei esta nossa situação. Esta semana uma rapariga a quem eu conheço de vista  que estava lá, quando por acaso me viu na internet lembrou-se disso. Estava em desespero! Ela e o namorado estão a viver uma situação semelhante à que eu e o loiro vivemos. E apesar de eles estarem a procurar os cuidados médicos especializados que necessitam, saber que alguém passou por isso e está do outro lado das crises de pânico, do outro lado do sofrimento que isso causa, deu-lhes ânimo no futuro.

Por norma as pessoas criticam a minha abertura, o facto de eu ser talvez demasiado honesta em relação aos meus fracassos até mais do que às minhas vitórias. Parece que só conto o fado da desgraçadinha. Mas por uma vez o facto de eu ser tão aberta em relação às lutas da minha vida trouxe um resultado muito positivo. Ajudou alguém!

Talvez esta minha personalidade estranha e um pouco louca seja a minha forma de equilibrar o mundo e ir ultrapassando desafios sem desistir, talvez o meu optimismo e confiança no mundo mesmo na desgraça e estes óculos rosa com que vejo tudo sejam no fundo uma força em vez de fraqueza. 

Vou acabar este pequeno "testamento" com uma expressão que me disseram há uns meses e que adorei, era suposto ser um insulto mas foi tão inesperado e criativo que passei a usar como medalha:"Tu passas pela vida como quem caga arco-íris e unicórnios" 😎

Não acham que me assenta realmente bem?







sexta-feira, 15 de março de 2019

Serão as pessoas que nos odeiam apenas admiradores invejosos?


Nos últimos tempos estou talvez a viver aquela que até agora é a época mais difícil da minha vida. Estou a gerir a dor da perda do meu Pai, em certa parte isolada das pessoas que amo. Acrescido a isto tudo e à adaptação que existe numa escolha de mudança tão radical como a que fiz aos 33 anos de idade, tenho tido desde que vim para cá desafios e problemas muito complicados que fogem totalmente do meu controlo, que me prejudicaram grandemente ainda que que eu não tenha tido qualquer responsabilidade ou mão neles.  

Tudo isto causou-me uma fragilidade que por norma  experimento mais em períodos de dor. Eu sou uma optimista nata, mas até eu me sinto perdida no mundo nestas circunstâncias.

Como é conhecido, costumo virar-me para a escrita, mas a verdade é que nos últimos tempos senti mais necessidade de me isolar, de dar carinho a mim mesma, de reduzir a pressão na minha vida pessoal e social,  de me dar o direito a parar. 

Não sei se foi a melhor decisão,  tenho-me sentido numa luta para permanecer à superfície e não me afundar face aos problemas. 

A par com isto tenho sofrido ataques pessoais gratuitos só porque talvez seja a melhor altura para que estes tenham impacto. A maldade surpreende-me sempre!
Não deveria. Mas parece-me sempre tão gratuita sem uma motivação aparente.

Eu acredito que só pessoas inseguras e que se sentem frágeis em si atacam outras pessoas que não estão no seu melhor. Que no fundo isto vem duma falta de oportunidade de conseguir triunfar quando em circunstâncias em que o alvo não se sente diminuído ou paralisado. Começo a acreditar que os atacantes são em si admiradores um bocado estranhos, que no fundo invejam algo na força ou na felicidade das pessoas que atacam e que usam isso para que diminuindo o outro se elevem a si mesmos. Não resulta! 

A única forma de nos elevarmos está na bondade. A nossa vida é uma jornada para encontrar significado, para ter um impacto positivo no mundo, para procurar a verdadeira felicidade que existe apenas no amor ao outro... muitas vezes deixamos que coisas vazias e fúteis se ponham no nosso caminho entre nós mesmos e o nosso propósito. 

Da minha parte não há-de ser isto a fazer-me desistir do que tracei como objectivo. Talvez esteja na altura de me abrir ao mundo de novo, ainda que ferida. 




segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Como sobrevive o optimismo?

A passagem do Ano é um tempo de optimismo!

 Eu não tenho muito de tendência cínica e como tal não pertenço aos que se queixam de haver datas comerciais e assim. Por norma acredito que todos os momentos que nos façam parar aproveitar a vida, as pessoas que nos rodeiam e nos ajudem a ser felizes são benvindas. 

Apesar disto não costumo ter festas felizes. Não gosto muito do Natal, sinto-me sempre muito nostálgica, odeio fazer Anos desde que me lembro apesar de gostar que as pessoas se lembrem de mim no dia, gosto de fazer resoluções e de organizar tudo para o Novo Ano porque sou uma optimista, mas ou estou doente no dia ou acontece sempre qualquer coisa que me impede de ter uma passagem do ano fantástica. 

Este ano passámos um Natal particularmente terrível devido à morte do meu Pai e outros problemas graves que nos estão a acontecer como família agora, não se augura um 2019 positivo.
Até Dezembro estava a ser um ano razoavelmente bom, com muito trabalho e mudanças mas pelo menos com optimismo. Isto veio mudar isso em mim. 

Uma das coisas que as pessoas me costumam dizer que admiram é eu ser optimista e conseguir ultrapassar as dificuldades sem me deixar abater, mas por norma não são dificuldades tão grandes...

Hoje, faço o balanço do Ano e pergunto-me: como sobrevive o optimismo a sabermos que a nossa vida pode derrapar de tal forma num segundo?

A pessoa que eu usava como modelo de resiliência era o meu Pai. O facto de ele ter tido uma acidente que o deixou com uma deficiência grave no início dos 20, de ter depois disso recuperado muito mais do que os profissionais de saúde acreditavam ser possível, de se ter casado, ter filhos, estudado, mudado de carreira e de viver a vida como se não tivesse problema nenhum que o limitasse foi sempre o meu modelo de força.

Um dia numa época da minha vida em que repensava mudar de direcção e me encontrava particularmente infeliz ele veio buscar-me a Lisboa e no caminho para a terra disse-me que não há mal nenhum em falhar, não há mal nenhum em mudar de direcção e que ele próprio tinha tido de recomeçar tudo do zero conta vontade, de refazer todos os planos e sonhos e que ainda assim correu tudo bem.

O optimismo, resiliência e força dele moldou-nos como pessoas a mim e à minha irmã. Fez-nos acreditar que se quisermos as coisas e trabalharmos para elas, estas acontecem. A minha mãe é também uma das poucas sonhadoras de 60 anos e isso sempre nos ajudou a lançarmo-nos para o mundo sem grande medo.

Mas como viver estas verdades sem o modelo que no las inspira?

Neste momento sinto-me sem força para continuar a remar contra a maré. Sinto o meu optimismo completamente esmagado, não vejo muito o propósito de tudo e penso que pela primeira vez desde que me conheço não tenho resoluções concretas de Ano Novo.

Assim este ano desejo sobretudo que consiga fazer as pazes comigo mesma, com toda esta situação e que 2019 me traga esta força e optimismo que ajudam a escalar as montanhas da vida.

Nem de propósito hoje um conhecido meu enviou-me uma mensagem de Ano Novo a desejar-me optimismo, vou colocar aqui a imagem. 

Este ano não me proponho a atingir nada, proponho-me a sobreviver e a estar aberta a que coisas boas voltem a inundar a minha vida. Porque fora nestas situações de catástrofe em que nada de bom se consegue retirar, a felicidade está na maneira como olhamos para as coisas, e eu preciso de reaprender a olhar com leveza para o mundo que me rodeia, sem medo, com confiança.


Quero realmente um optimismo como o da pessoa que pensou compôr este pilar com fita-cola.





segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Uma História de Natal (real)

Hoje encontrei esta  notícia

É sobre um Hotel em Hull, que tinha reservas através duma instituição de caridade, para sem abrigo lá ficarem duas noites durante o Natal e que cancelou a reserva... Tendo eu própria  uma história sobre este Hotel e  um sem abrigo numa situação aflitiva que vivi, decidi contá-la a seguir:

Na passada quarta-feira 12 de Dezembro  por volta das 23 h soube que o meu Pai tinha sofrido um acidente horrível de viação e perdido a vida. 
Fiquei completamente desorientada! E naquelas terríveis horas, de quarta para quinta-feira, ainda  tinha muita coisa para preparar... reservei a viagem de comboio de Hull para Manchester, comprei uma nova viagem de avião, fiz a mala, tomei banho e chegada por volta das 2 da manhã estava pronta para sair de casa.

 O meu comboio era por volta das 5 e meia  da manhã mas eu estava num tal estado de desespero e ansiedade que não conseguia estar naquele quarto onde vivo. Uma vez que já tinha passado parte duma noite na estação em Manchester achei que talvez ir para a estação de comboios em Hull me fizesse sentir menos em crise... pelo menos via pessoas. Foram momentos de desespero.

Chegada à estação dei-me conta de que em Hull ao contrário de em Manchester a estação estava fechada. Fiquei na rua, estava um frio gélido, sem vontade de voltar para o quarto e à beira do colapso. 

Tive a ideia de ir para o café deste hotel da notícia, de tomar qualquer coisa enquanto aguardava pela abertura da estação às 5h, o café/ bar do Hotel estava cheio de gente a beber relaxadamente... Um senhor do Hotel após eu chamar, chegou à entrada, olhou para mim, e recusou-me a entrada. Eu expliquei a minha situação e ele disse que não podia fazer nada, mas que devia ir ao centro comercial ali perto que tinha um supermercado aberto 24 horas.

Chegada ao centro comercial, estava tão desorientada que fui para a Porta errada e não conseguia entrar. Veio um sem abrigo que me mostrou como entrar, me perguntou como eu estava e por me ver tão mal me conduziu até uns bancos no meio do centro comercial (debaixo das câmaras de vigilância) e me disse que ia ficar por perto só para eu não estar sozinha naquele estado.

Tem 35 anos, chama-se Adam, é polaco, tinha estudado astrofísica na Universidade de Hull, mas não acabou o curso. Tinha qualquer problema de saúde mental pelo que me apercebi, trazia um livro dos evangelhos e para me acalmar começou a ler-me partes a dizer que Deus consola e que é o Nosso grande Pai. 

Quando chegou a hora da estação abrir disse-me que ia à vida dele, procurar cigarros, e desejou-me boa sorte para a longa viagem que ainda me esperava...

Isto parece uma história de livro... foi real, ponto por ponto e ensinou-me algumas coisas.

Aprendi que nos piores momentos de desespero, quando pensamos que Deus nos abandonou ele se mostra de alguma forma, tal como no texto das pegadas na areia.

Ensinou-me que a educação, não define o rumo.

Ensinou-me que os mais desesperados podem ser os primeiros que nos acodem, quando em desespero.

Mostrou-me que talvez eu deva fazer mais por estas pessoas, tão iguais a mim, que provavelmente por difíceis circunstâncias tenham tido uma vida tão horrível. Eu sempre fui uma pessoa empática e dou praticamente sempre dinheiro às pessoas que vejo na rua, o meu namorado até brinca comigo a dizer que assim nunca mais chegamos a ricos. Mas realmente o que faço não é suficiente para o que me foi feito. Não sei bem como nem o quê, mas cresceu em mim a firme intenção de ajudar duma forma mais concretas os sem abrigo, depois disto tudo.

Por agora começo a contar esta história, talvez melhore a atitude de algumas pessoas face a estes homens e mulheres.






terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Gorda Procura vestido: Noivas plus size

É universalmente sabido que uma mulher solteira que fica noiva procura o vestido perfeito...

Que me perdoe a Jane Austen pela atabalhoada adaptação da sua frase perfeita...

Mas acho que não há mulher no mundo que não queria estar linda no casamento, isto é uma coisa que ultrapassa culturas, geografias, idades e personalidades. As noivas têm gostos diferentes, mas à sua maneira cada uma quer ser original, magnífica, verdadeira a si mesma e perfeita no dia do casamento.

No meu caso  o facto de eu ser gorda e de segundo prevejo estar gorda no casamento, dificulta isto. Não é costume... a maior parte das mulheres quando se casa está magra ou então conforma-se. A sociedade diz -lhe que não pode sonhar com o vestido que quer, que deve escolher um determinado tipo (quiçá uma tenda), que distraia as pessoas do seu imenso tamanho.

Para a minha mãe esta coisa de ter duas filhas a casar gordas é um imenso desgosto! Primeiro foi a minha irmã que estava absolutamente lindíssima no casamento, o ser gorda não diminui em nada o facto de estar perfeita e radiante. Não digo isto por ser irmã, acho mesmo que  ela conseguiu o que as noivas todas querem... E agora eu, que ao que tudo indica vou casar também muito gorda...

Quando fui com a minha irmã às lojas de noiva foi também o primeiro impacto que tive com esta forma como as mulheres gordas são tratadas nestas situações. Parece que a norma é achar que uma gorda não deve exigir nada no vestido e contentar-se com o primeiro saco de batatas branco que aparece.

Ora comigo foi mais ou menos o mesmo:

No primeiro dia em que fui ver vestidos fui sozinha, numa das lojas da Baixa foram super simpáticas mas como a simpatia se paga cara acrescentaram 1000€ ao vestido caso eu o quisesse.  Um vestido que seria assim na ordem dos 1600€ para uma mulher de tamanho normal, para mim por ser gorda passaria para os 2600€. Eu acredito que os vestidos das gordas levam mais tecido, mas contando o tamanho todo dum vestido de noiva e o que é pago pelo design, a loja e tudo isso acredito que tão excessivo aumento seja apenas devido ao preconceito.

No segundo dia  fui ver vestidos com o loiro. Os meus pais escolheram os fatos juntos e eu achei uma ideia engraçada. Mas a experiência foi profundamente deprimente, a ele toda a gente o tratou incrivelmente bem em todas as lojas, a mim trataram-me como se eu fosse um mamute... Numa outra loja da baixa disseram-me. - "Não pode esperar muito, os vestidos das gordas são os que saem primeiro".
O que me deixou a pensar que é falta de visão de negócio não investir então mais nestes vestidos de gordas, afinal as gordas também se querem casar e sentir bonitas... Debaixo das banhas somos mulheres normais, com desejos e sonhos,como qualquer outra.

Na terceira vez, enfiaram-me num vestido quase à força que era em tudo o contrário do que eu disse que gostava, foram simpáticas mas não gostei que ignorassem os meus gostos. No final perguntaram: -"Então o que gosta neste vestido?"
 E eu respondi: -"Nada!"

No final e apesar de eu não fazer acordos de publicidade no blog com ninguém, acho que o bom comportamento deve ser premiado e coloco aqui duas lojas em que fui muito bem atendida para que outras mulheres gordas possam encontrar uma solução, sem sofrer todo este processo torturoso indo a um sítio onde a deixem sentir  a mulher linda que é!

Uma é a Arte & Chic em Samora Correia, foi onde a minha irmã comprou o vestido dela. Eu também lá fui e fui muito bem tratada, as senhoras são super amorosas e pacientes e tem uma grande variedade de vestidos.  Não comprei o meu  lá porque entretanto me tinha apaixonado por outro, numa Loja em Lisboa, o que era mais conveniente.

A outra foi onde comprei o meu vestido. É a  Pronovias, eles têm uma linha só de vestidos plus size, ainda que eu tenha escolhido um da linha normal. As senhoras foram também super simpáticas e atenciosas comigo, foi contudo um processo moroso para poder fazer marcação, experimentar o vestido, arranjar dias em que o vestido estivesse disponível quando a minha mãe, irmã, mini sobrinha e futura sogrinha pudessem ir comigo.

No final de tudo isto cheguei à conclusão que a única coisa  mais complicada do que comprar roupa normal quando se é gorda? É comprar o vestido de noiva, quando se é gorda e que ainda que isto esteja a mudar, não chegámos ainda ao ponto onde devíamos.






domingo, 9 de dezembro de 2018

Saudade é a palavra cheia do vazio,



 Saudade  é a palavra cheia do vazio


Sinto-me estranha,
Falta tão pouco para casa
E o tempo alarga, sem parar,
Como um elástico
Cada hora dura agora mais...
o relógio não avança teimoso. 

Saudades da minha vida,
Da vida que vivia feliz sem saber,
Do espaço que era meu sem o ser,
Saudades da família...
Do meu loiro e do cachorro.
Saudade dos amigos,
Das pessoas que me fazem  confortável
Por não ser mais ninguém
Do que apenas eu!

Saudade de conversas antigas repetidas,
Das palavras que nem preciso de falar
Para nos sentirmos bem entendidas 
Num cruzamento do olhar.

Saudade não tem tradução, 
Mas se me pedissem para descrever
Um tão complicado sentimento
Eu diria de forma simples:
- Na saudade cabe tudo!
A saudade é tão somente:
-Uma palavra cheia do vazio.


Eva Maria Valério de Sousa



quinta-feira, 15 de novembro de 2018

2 Meses em Hull: o balanço

Fez ontem 2 meses que cheguei a Hull.

As mudanças são difíceis, especialmente para alguém como eu que é um poço de ansiedade e que se encontrava finalmente muito feliz com a vida que tinha. Ainda assim, cheguei com muita esperança depositada nova etapa da minha vida, com vontade de abraçar todos os desafios que acarreta.

Claro que antes de vir pensei nas dificuldades, mas devo dizer que sou sempre um bocado ingénua quanto à dificuldade das coisas a que me proponho. Talvez seja por isso que tantas vezes dou passos maiores do que o pé que me fazem falhar, e em outras tantas acabe a fazer coisas loucas que nunca pensei ser capaz mas que ao resultarem me impulsionam para a frente.
Ainda não sei se vir foi um caso ou o outro.Ver tudo na vida com óculos cor de rosa é ao mesmo tempo uma maldição e uma bênção.

Mas ainda que nem tudo seja fácil por ter sido uma mudança tão grande, devo dizer que após dois meses me sinto ambientada a esta nova vida.

Sim, há dias miseráveis! Muitos dias em que me sinto mesmo burra por não conseguir fazer as coisas bem, mas se pensarmos bem... não se sentem todos os estudantes assim às vezes? 
E eu agora sou uma estudante! Como diz a minha mãe às crianças "-ser estudante é o teu trabalho!", não sou já criança mas isto continua tão válido como então...
Sim, é uma treta viver na casa em que vivo! Mas é apenas mais uma coisa que me motiva para me esforçar e voltar rápido para casa.

E depois há todas as coisas boas de Hull...

Em especial as pessoas.

Com raras excepções, são incríveis! Demorou pouco tempo para ter amigos e estar rodeada efectivamente de pessoas fantásticas, que me ajudam a sentir feliz.

Claro que toda esta novidade da descoberta não elimina as saudades, juntamente com  o Doutoramento em si são as coisas mais negativas e penso que vão ser difíceis de gerir até ao fim.

Mas de momento estou feliz e orgulhosa de mim mesma, por na minha ingenuidade face às dificuldades e optimismo incurável não escolher sempre os caminhos mais fáceis e confortáveis, mas os que me fazem crescer e tornar em cada dia um pouco mais a pessoa que sonho ser.






P.s. Como ainda não tirei fotos desde que estou em Hull, decidi pôr uma em que me sinto gira só porque eu mereço! :D

domingo, 11 de novembro de 2018

Relações à distância: uma pausa na vida ou uma maneira diferente de amar?



Quando decidi sair de Portugal sabia que estar longe do meu loiro seria  uma das coisas que mais me custaria. Mas fui muito ingénua, parti do princípio que seria fácil de gerir. Não é! Estar longe dele é horrível, sobretudo nos momentos muito bons ou muito maus.

Diariamente procuramos formas de estar mais próximos, como pequenos almoços românticos no skype, mensagens durante o dia, fotografias partilhadas, coisas que façam o outro sentir-se vivo na nossa cabeça e coração. E tudo isto que funciona nos dias em que estamos bem é muito pouco nos dias em que não estamos.

É preciso muita confiança no outro e em si mesmo para que queiramos ver o outro viver sem nós, algo de inevitável quando o plano é ficar separado mas em relação tanto tempo como o que nós temos planeado.

Sobretudo para quem fica, ver o outro construir uma "vida diferente" em que não tem presença física é duma impotência terrível. Sinto  que tenho a vida em pausa. Como se o tempo que estou aqui fosse algo que só tem de passar até estar de novo com ele. Como se fosse um intervalo daquilo que é a minha vida real. 

Eu entendo que é um intervalo de tempo em que (para bem da minha saúde mental e felicidade) me tenho de  adaptar, construir amizades, ter passatempos e actividades normais, viver para que o intervalo se torne mais curto...Ainda que nem todos os dias isto seja fácil, para mim de fazer e para ele de assistir sem poder participar.

 Procurar o equilíbrio e a presença do outro à distância é essencial, o  tempo é o inimigo...muda-nos!  Vivo com o medo de que nos mude ao ponto de que quando estejamos juntos de novo sejamos pessoas diferentes, ou de que tudo seja demais para nós como conjunto.  Eu sou tão diferente da pessoa que era há alguns anos que quando olho para o passado não me reconheço. O desafio de qualquer relação é crescer integrando o outro, mas quando em distância é um desafio tão maior...

Brigar entre casal é normal e até saudável, acho que quando se deixa de ter brigas é quando a relação morreu, quando não se quer saber... por outro lado à distância não é possível sanar as brigas da mesma maneira e no que seria um arranhão ligeiro cresce uma grande infecção...

Hoje tenho a alma da cor do céu, cinzenta!





Tese e Desafios

Eu acho que me tinha esquecido como é começar algo.  Tive o mesmo trabalho por 10 anos, aprendi imensas coisas lá, mas com o tempo habi...